
Durante muito tempo, na minha convivência em família, tive a sensação de que minha cadeira de rodas havia se tornado uma espécie de extensão do carrinho de bebê. Não porque a cadeira representasse infantilidade, mas porque eu continuava sendo tratada como aquela criança que precisava ser conduzida, protegida e ter suas escolhas controladas.
A cadeira é minha mobilidade. A infantilização é outra coisa.
Eu sou uma mulher adulta. Tenho voz, opinião, desejos, vontades, limites e escolhas. Minha cadeira de rodas não muda nada disso.
Desde que me lembro, venho lutando para ser reconhecida como adulta, com minhas escolhas e minha autonomia respeitadas pela família.
Ao longo dessa trajetória como mulher com deficiência, vivi situações em que o cuidado e a proteção se transformaram em controle, interferindo nas minhas escolhas e limitando minha autonomia.
Precisamos falar sobre a infantilização das pessoas com deficiência, porque ela ainda é naturalizada, ignorando que tratar uma pessoa adulta como criança também é desrespeitar sua autonomia.
Quando uma pessoa adulta com deficiência tem sua capacidade de decisão questionada, sua opinião desconsiderada e seu “não” interpretado como desobediência, sua autonomia está sendo desrespeitada.
É nesse ponto que a infantilização pode se relacionar com o capacitismo.
Deficiência não é sinônimo de incapacidade.
Precisar de acessibilidade não diminui a capacidade de ninguém.
Precisar de apoio não significa abrir mão da autonomia.
Cuidar também é respeitar escolhas, limites e o direito de cada pessoa conduzir a própria vida.
Minha cadeira de rodas faz parte da minha mobilidade. É o que me permite circular, trabalhar, sair, viajar, encontrar pessoas, ocupar espaços e viver.
Ela não representa dependência nem incapacidade.
Ela representa mobilidade, autonomia e liberdade.
Por isso, essa reflexão também é um convite às famílias e à sociedade: é preciso rever a forma como enxergamos as pessoas com deficiência.
Cuidar não é controlar.
Ajudar não é decidir pelo outro.
Proteger não é limitar sua autonomia.
Antes de presumir que uma pessoa com deficiência não consegue, pergunte o que ela precisa. Antes de decidir por ela, escute o que ela tem a dizer.
Respeitar a autonomia também é uma forma de inclusão.
Precisamos combater a infantilização e o capacitismo que ainda fazem parte do cotidiano de muitas pessoas com deficiência. A deficiência não diminui a capacidade de ninguém, nem retira o direito de fazer escolhas, estabelecer limites e conduzir a própria vida.
Toda pessoa com deficiência tem o direito de ser reconhecida como quem é: uma pessoa adulta, com sua própria história, personalidade, desejos, escolhas e projetos de vida.
A deficiência não apaga nenhuma dessas dimensões.
Eu não quero ser protegida da vida.
Eu quero viver a minha vida.
Com minhas escolhas, meus erros, meus acertos, meus desejos, minhas contradições e minha liberdade.
Porque inclusão não é decidir por alguém.
É garantir que cada pessoa tenha autonomia, respeito e liberdade para decidir por si mesma.
E é por isso que digo, mais uma vez:
Minha cadeira de rodas não é um carrinho de bebê.

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