Você já imaginou crescer, chegar à vida adulta e perceber que sua família ainda enxerga você como uma criança?
Por muito tempo, tive essa sensação. Era como se minha cadeira de rodas tivesse se transformado em uma extensão de um carrinho de bebê.
Quando eu era bebê, usei um carrinho, como tantas outras crianças. Mas cresci. Vieram novas fases, descobertas, vontades, desejos e responsabilidades. Comecei a construir minha identidade e queria, como qualquer pessoa, experimentar a vida, fazer escolhas e descobrir meus próprios caminhos.
Mas minha família não reconhecia essa nova fase da minha vida.
Minha mãe costumava dizer: “Você será meu eterno bebê.”
Talvez, para algumas pessoas, essa frase pareça carinhosa. Para mim, não era. Eu não queria continuar ocupando o lugar de criança. Queria ser reconhecida como uma pessoa que estava crescendo, amadurecendo e construindo sua própria história.
E não era apenas uma frase. Isso aparecia nas atitudes, nas decisões tomadas por mim, nas minhas vontades questionadas e na dificuldade de reconhecer minha capacidade de fazer escolhas.
O problema é que esse comportamento não ficou restrito ao ambiente familiar. Ele afetou meu desenvolvimento. Como construir independência quando outras pessoas estão sempre decidindo por você? Como ganhar confiança nas próprias capacidades quando suas escolhas são constantemente colocadas em dúvida?
Durante muito tempo, precisei lidar com essas limitações. A deficiência parecia justificar a ideia de que eu precisava continuar sendo protegida e conduzida, mesmo depois de adulta.
Mas eu tinha meus próprios planos. Queria estudar, trabalhar, conhecer pessoas, viver meus amores, minhas paixões e fazer minhas escolhas. Queria experimentar a vida, com tudo o que ela tem de bom e de difícil.
Não foi um caminho fácil. A falta de acessibilidade já tornava muita coisa mais complicada. E, dentro de casa, conquistar espaço para exercer minha autonomia também era uma batalha.
Precisei construir caminhos que outras pessoas já encontravam abertos. Fui atrás dos meus estudos, do trabalho, da independência e das oportunidades que apareceram. Algumas portas estavam fechadas, outras precisei encontrar e muitas vezes abrir à minha maneira.
Dei a volta por cima da forma mais dura possível. Não porque tudo tenha sido superado de repente, mas porque continuei construindo minha vida, fazendo escolhas e ocupando os espaços que desejava.
Hoje, quando olho para essa história, entendo o quanto a infantilização interferiu na minha formação. Não foi simplesmente uma questão de me tratarem como criança. Foi ter meu desenvolvimento, minhas experiências e minha autonomia atravessados por uma maneira de me enxergar que não correspondia à mulher que eu estava me tornando.
E talvez você esteja se perguntando o que tudo isso tem a ver com minha cadeira de rodas.
Tem muito a ver. Durante anos, pareceu que o fato de usar uma cadeira de rodas justificava me manter naquele lugar de dependência. Como se a deficiência tivesse interrompido meu crescimento ou me impedisse de viver as experiências da vida adulta.
Mas não foi a cadeira de rodas que me manteve no lugar de criança. Foi o olhar de quem não reconhecia que eu havia crescido.
O carrinho de bebê pertenceu à minha infância. A cadeira de rodas faz parte da minha vida adulta. São histórias diferentes, com significados diferentes.
Minha cadeira de rodas não é um carrinho de bebê.
O carrinho ficou no passado. E ninguém mais decide por mim os rumos da minha história.
Gata de Rodas®







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