Minha primeira consulta com um ginecologista aconteceu quando eu estava perto dos 40 anos. E olha, não foi exatamente uma experiência tranquila.
Fui acompanhada pela minha mãe e por uma amiga. Eu não queria que minha mãe entrasse comigo no consultório, mas ela insistiu. Naquela época, acreditava que eu ainda fosse virgem.
Durante a consulta, a médica perguntou quando havia sido minha última relação sexual. Respondi normalmente, com sinceridade. Minha mãe ficou chocada! Pelo visto, esperava outra resposta.
Na volta para casa, ainda me pediu que não comentasse sobre o assunto.
A situação foi bastante constrangedora. Minha vida sexual parecia ser uma surpresa para minha família, mas havia algo muito mais importante que precisava de atenção: minha saúde.
A médica solicitou vários exames e foi aí que começou outra dificuldade. Encontrar hospitais, clínicas e centros de diagnóstico com condições de acessibilidade não era nada simples.
Cada exame exigia uma busca por atendimento adequado. Faltavam equipamentos, macas acessíveis e estrutura para receber mulheres cadeirantes.
Apesar de tudo, consegui realizar os exames. O resultado apontou um nódulo benigno na mama direita. Desde então, mantenho acompanhamento médico.
Mas uma pergunta sempre volta à minha cabeça: quantas mulheres cadeirantes encontram tantas dificuldades que acabam adiando ou deixando de fazer seus exames?
Quando chega o Outubro Rosa, vemos campanhas falando sobre prevenção, autocuidado e diagnóstico precoce. E isso é muito importante. Mas será que todas as mulheres conseguem acessar esses serviços?
Imagine procurar um local para fazer um exame e descobrir que a maca não é adequada para sua transferência. Ou chegar ao atendimento e perceber que ninguém sabe como oferecer assistência sem comprometer sua segurança e privacidade.
É sobre isso que também precisamos conversar.
Mulheres cadeirantes têm mamas, precisam de acompanhamento ginecológico, realizam exames preventivos e também precisam de cuidados com a saúde. Não podemos ficar de fora das campanhas simplesmente porque os serviços não estão preparados para nos atender.
E não estou falando apenas de rampas na entrada. Precisamos de macas acessíveis, equipamentos adequados e profissionais que saibam atender sem constrangimento, infantilização ou desrespeito à nossa intimidade.
A Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015) garante o direito à saúde em condições de igualdade. Mas, na prática, ainda precisamos cobrar para que esse direito seja respeitado.
Conto essa história porque não quero que outras mulheres precisem passar pelos mesmos constrangimentos e dificuldades que encontrei para cuidar da própria saúde.
Meu corpo é político. Minha saúde é um direito!
E quero conversar com você: será que as campanhas de prevenção estão realmente chegando a todas as mulheres?
O Outubro Rosa também precisa enxergar as mulheres com deficiência. E o acesso à saúde não pode depender da sorte de encontrar um serviço preparado.
A Gata de Rodas vai na contramão do que a sociedade espera de uma mulher cadeirante.







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